{"id":226,"date":"2015-02-28T00:21:45","date_gmt":"2015-02-28T02:21:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.danielmendonca.com.br\/?p=226"},"modified":"2015-02-28T00:21:45","modified_gmt":"2015-02-28T02:21:45","slug":"a-formacao-da-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/danielmendonca.com.br\/?p=226","title":{"rendered":"A Forma\u00e7\u00e3o da Sociedade"},"content":{"rendered":"<p>A conviv\u00eancia em comunidade exige deveres e obriga\u00e7\u00f5es comuns a cada indiv\u00edduo, tal como garante direitos limitados pela \u00e9tica e moral existente. O crescimento em n\u00famero dos indiv\u00edduos que formam uma comunidade exige tamb\u00e9m adapta\u00e7\u00f5es em termos estruturais para suprir as necessidades de todos, e tamb\u00e9m para que os direitos, deveres e obriga\u00e7\u00f5es permane\u00e7am inalterados. Isso porque estes itens se resumem em leis para o grupo, facilita a conviv\u00eancia e evita o caos das diverg\u00eancias.<\/p>\n<p>Desta nova estrutura\u00e7\u00e3o, surge a divis\u00e3o de tarefas e responsabilidades, ou seja, neste momento de crescimento, exige-se um sistema de intera\u00e7\u00e3o mais complexo e de produ\u00e7\u00e3o estratificada, sob uma administra\u00e7\u00e3o centralizada. Assim, se mant\u00e9m o objetivo, a garantia do bem-estar social.<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia em comunidade exige de cada indiv\u00edduo um respeito perante os direitos do pr\u00f3ximo a partir de deveres e obriga\u00e7\u00f5es exigidos. Inicialmente, a comunidade pode manter sua concep\u00e7\u00e3o moral e \u00e9tica de forma verbal, ou seja, n\u00e3o-escrita e culturalmente enraizada. Todavia, o crescimento em n\u00famero de indiv\u00edduos exige uma restrutura\u00e7\u00e3o das atividades, da produ\u00e7\u00e3o e da oferta dos recursos de maneira igualit\u00e1ria, tal como a formaliza\u00e7\u00e3o das leis. Simplificando, manter o bem-estar social advindo da igualdade a todos os membros da comunidade. As leis surgem n\u00e3o somente para evitar o caos e a decad\u00eancia produtiva e de bem-estar, mas tamb\u00e9m para facilitar decis\u00f5es, individuais e em grupo.<\/p>\n<p>Este crescimento leva a modifica\u00e7\u00f5es estruturais, divis\u00f5es de tarefas, produ\u00e7\u00e3o estratificada e administra\u00e7\u00e3o centralizada. A \u00faltima surge paralelamente \u00e0 necessidade de formalizar as leis da comunidade, constituindo um grupo capaz de harmonizar as tarefas descentralizadas e a distribui\u00e7\u00e3o justa a todos, sem discrimina\u00e7\u00e3o e preju\u00edzo, salvo aqueles desrespeitam as regras de conviv\u00eancia. Ali\u00e1s, estas regras existem e se adaptam constantemente a cada nova restrutura\u00e7\u00e3o em vista do constante crescimento. E este crescimento, obviamente, traz novas necessidades e, algumas vezes, acrescenta novos valores aos indiv\u00edduos. Al\u00e9m disso, a escassez de um recurso acaba gerando sua valoriza\u00e7\u00e3o. Ao grupo que det\u00e9m sua extra\u00e7\u00e3o ou produ\u00e7\u00e3o, um status maior naquela comunidade, mais ainda, aos representantes de toda comunidade, respons\u00e1veis pela administra\u00e7\u00e3o centralizada, exige-se que se mantenha o respeito aos direitos de todos, evitando, assim, o autoritarismo do grupo enriquecido. Desta situa\u00e7\u00e3o, podemos tirar exemplos da turbul\u00eancia gerada pelo crescimento. As leis existentes para manter a ordem do sistema e evitar o caos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o eficientes o bastante para evitar o lucro de alguns em consequ\u00eancia do preju\u00edzo de outros. A impunidade surge ap\u00f3s o primeiro sucesso em burlar a lei e se manter oculto diante do olhar da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Desenvolve-se, ent\u00e3o, um novo conceito de comunidade, que \u00e9 a sociedade hierarquizada. Sua divis\u00e3o \u00e9 decorrente dos valores, das diferentes formas de poder e das pr\u00f3prias normas mantidas para alguns grupos, diferentemente de outros.<\/p>\n<p>Todos estes pontos podem ser identificados, por exemplo, no livro A revolu\u00e7\u00e3o dos bichos. \u00c9 o retrato do conv\u00edvio pac\u00edfico entre os membros de uma comunidade, com a produ\u00e7\u00e3o \u00fanica e em conjunto, al\u00e9m da reparti\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria dos recursos. Do crescimento nasce a necessidade da divis\u00e3o de responsabilidades para manter o direito de todos, e desta restrutura\u00e7\u00e3o vem a divis\u00e3o hier\u00e1rquica, pois alguns acabam se responsabilizando por atividades mais importantes do que as dos outros. A exig\u00eancia por diferen\u00e7as de tratamento come\u00e7a a surgir. Paralelamente a discuss\u00f5es sobre interesses pr\u00f3prios em detrimento da coletividade, \u00e9 gerada a administra\u00e7\u00e3o do povo e, juntamente a ela, o poder. O poder, no entanto, pode ser a fonte da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mais interessante, no entanto, \u00e9 entender como surgem conceitos morais e \u00e9ticos para diferentes tipos de sociedade e, al\u00e9m disso, como \u00e9 quase inevit\u00e1vel, a manipula\u00e7\u00e3o de um grupo perante o outro, dos fortes perante os fracos, dos maiores perante os menores, dos mais astutos perante os ignorantes. Assim como a natureza, o pr\u00f3prio habitat natural propicia a um grupo se destacar e disponibilizar recursos para que seus indiv\u00edduos manipulem a ordem e o caos. Lembremos sempre que a escassez gera a valoriza\u00e7\u00e3o, e em conjunto com a instabilidade social, gera o poder. Adam Smith, o pai do Capitalismo, poderia estar certo ao dizer que a busca pelo bem-estar individual gera o bem-estar de todo o grupo se n\u00e3o fosse pelo dinamismo das rela\u00e7\u00f5es sociais e da pr\u00f3pria natureza. Se ningu\u00e9m se sacrifica em benef\u00edcio de todos, algu\u00e9m pode ser prejudicado. A mesma situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 satirizada no conto O grilo e a formiga, onde a primeira personagem \u00e9 o retrato do \u00f3cio e a segunda, do capital social, comunista, de interesses coletivos e do trabalhador.<\/p>\n<p>Uma sociedade deve estar preparada para o dinamismo natural do seu habitat tal como o dinamismo criado por ela pr\u00f3pria. Se a popula\u00e7\u00e3o cresce, os recursos devem existir em igual propor\u00e7\u00e3o, tal como as atividades b\u00e1sicas de sobreviv\u00eancia. A igualdade se mant\u00e9m pela distribui\u00e7\u00e3o justa das tarefas, dos alimentos e da moradia. O sacrif\u00edcio de alguns, administrado indevidamente, gera o conforto imediato dos outros s\u00f3 pela simples compara\u00e7\u00e3o. Ou seja, quando todos est\u00e3o se alimentando de arroz e feij\u00e3o, a igualdade permanece, por\u00e9m, quando uns passam a ter que dividir o feij\u00e3o, quem mant\u00e9m a sua quantia se julga superior. \u00c0s vezes, um grupo se supera diante de outros na sociedade n\u00e3o pelo que ganha, mas pelo que mant\u00e9m.<\/p>\n<p>As atitudes dos homens que desobedecem a ordem da sociedade muitas vezes s\u00e3o f\u00e1ceis de entender. O preju\u00edzo e a falta elevam a necessidade de subtra\u00e7\u00e3o. A amea\u00e7a de &#8220;n\u00e3o possuir&#8221; gera a revolta contra o sistema. E o problema maior est\u00e1 no fato de que o homem nasceu como um ser livre, amoral e, por consequ\u00eancia, guiado pelos seus instintos, sem distin\u00e7\u00e3o do que \u00e9 certo ou errado, bom ou ruim. Da\u00ed existe algo em todos os homens que os normalistas em toda a hist\u00f3ria procuraram controlar. Foram criadores da pol\u00edtica, assim como criadores de religi\u00f5es. Foram aqueles, e ainda s\u00e3o, os que enxergam o futuro e o desenvolvimento de recursos como par\u00e2metro para os preceitos sociais. Ignoraram o inverso desde o in\u00edcio para garantir os resultados de suas ambi\u00e7\u00f5es. Mas tamb\u00e9m, estes normalistas s\u00e3o frutos da nossa pr\u00f3pria op\u00e7\u00e3o de vida, ou seja, o ser humano, desde o in\u00edcio, teve dificuldade para se decidir. Perante uma mesma situa\u00e7\u00e3o, poderia agir de diversas maneiras, mas a inconst\u00e2ncia dos resultados geraria d\u00favida e cansa\u00e7o por ter que decidir novamente. Para isso, desde o in\u00edcio, as leis e as normas foram importantes, pois facilitavam ao grupo, em sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o e relacionamento, evitavam disc\u00f3rdias e come\u00e7avam a gerar resultados previstos. Estas leis e normas ficaram sob a administra\u00e7\u00e3o de um grupo que se disponibilizou a esta tarefa: os normalistas.<\/p>\n<p>Quando surge o caos, alguns certamente estar\u00e3o ganhando com isso. Outros grupos, ainda vinculados \u00e0 lealdade ao povo, lutam por mudan\u00e7as. Sabem que n\u00e3o podem ignorar totalmente as regras, pois obviamente o homem \u00e9 um ser movido por elas. Precisam, ent\u00e3o, reestrutur\u00e1-las. Se preciso, utilizando as mesmas armas de seus oponentes pol\u00edticos, como a persuas\u00e3o, para movimentar a massa popular.<\/p>\n<p>O problema do homem \u00e9 que, instintivamente, existe uma vontade de n\u00e3o pensar. N\u00e3o querem sobrecarregar a mente. H\u00e1 uma prefer\u00eancia pela decis\u00e3o autom\u00e1tica baseada em padr\u00f5es. Por isso, torna-se uma pe\u00e7a num jogo de tabuleiro, sobre o qual se encontram dois jogadores. Dos justos e dos injustos e, mais importante ainda, \u00e9 que quando a sociedade encontra-se nas m\u00e3os dos justos ainda tem que torcer para que tudo esteja fluindo a favor, a natureza, o crescimento vegetativo e a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando nada est\u00e1 favor\u00e1vel ao desenvolvimento, at\u00e9 mesmo a raz\u00e3o est\u00e1 comprometida. Pode-se chegar \u00e0 necessidade de reformula\u00e7\u00e3o legal, de valores e at\u00e9 mesmo de cren\u00e7as sobrenaturais. As circunst\u00e2ncias econ\u00f4micas e a disponibilidade de comida e outros suprimentos exercem ineg\u00e1vel influ\u00eancia sobre os padr\u00f5es morais. Por exemplo, at\u00e9 mesmo entre chimpanz\u00e9s, a escassez costuma levar a alguma forma de partilha cooperativa ou de racionamento. Este \u00e9 o fundamento moral de uma atitude de partilha que faz da abstin\u00eancia uma virtude, cultiva a moralidade da conserva\u00e7\u00e3o e encoraja uma distribui\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria das benesses da natureza, mesmo para os membros mais fracos de uma sociedade. Na hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o h\u00e1 muitos exemplos em que a escassez extrema gerou um efeito contr\u00e1rio, com p\u00e2nico, entesouramento e elitismo material em seu lugar. V\u00e1rios imp\u00e9rios libertaram sua popula\u00e7\u00e3o escrava (quando n\u00e3o a disseminavam!), n\u00e3o por serem benevolentes, mas para baixar os elevados custos que mantinham tal popula\u00e7\u00e3o. Ou libertavam ou sucumbiriam diante da pr\u00f3pria lux\u00faria. A hist\u00f3ria de Mois\u00e9s retrata exatamente isso, deixando de lado os pontos fant\u00e1sticos desta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sobretudo o que existe na sociedade, inclusive o poder, est\u00e1 o c\u00f3digo moral. \u00c9 um sistema de padr\u00f5es \u00e9ticos pelos quais uma dada sociedade controla o comportamento de seus membros, motivando-os para que atinjam os objetivos dela. \u00c9 um processo de controle psicol\u00f3gico de grupo que geralmente proporciona uma estrutura bem mais ampla de manipula\u00e7\u00e3o do que a corporificada apenas no c\u00f3digo legal da sociedade.<\/p>\n<p>Na sociedade, quem se rebela contra o c\u00f3digo \u00e9 considerado imoral, mesmo que mais tarde seja julgada como certa e a sociedade como errada. Nestes termos, \u00e9 essencial ter em mente as press\u00f5es subjacentes e as circunst\u00e2ncias predominantes do momento e do ambiente. Isso quer dizer que c\u00f3digos morais podem conter preceitos maldosos, mas podem vir a ser aceitos de acordo com a necessidade da popula\u00e7\u00e3o. Sofrem mudan\u00e7as tamb\u00e9m quando comparados aos c\u00f3digos morais de outras sociedades.<\/p>\n<p>Enfim, enquanto a sociedade existir sob um c\u00f3digo moral, existe a possibilidade de questionar o sistema e as leis, de lutar por novos ideais e tamb\u00e9m de surgir como uma nova lideran\u00e7a. Enquanto existir problemas e o caos, existir\u00e1, paralelamente, um novo caminho. Uma nova solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A conviv\u00eancia em comunidade exige deveres e obriga\u00e7\u00f5es comuns a cada indiv\u00edduo, tal como garante direitos limitados pela \u00e9tica e moral existente. 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